A ação política
Para o observador desatento, as atividades da Associação Comercial poderiam reduzir-se na busca de soluções para os problemas do comércio, como foi amplamente divulgado pela própria entidade. De fato, em princípio, isso não era uma inverdade, pois os empresários que dela faziam parte, se esforçaram apenas para isso.
Enquanto a Associação Comercial era criada e consolidada, a disputa pelo controle político municipal tornou-se o centro das atenções da população. Era uma disputa que interessava a todos os setores da sociedade: de um lado, o grupo conservador, antigos detentores do poder no regime monárquico, importante influência entre políticos de todo território brasileiro, pilares da economia cafeeira, claramente monarquista; do outro lado, um novo potentado, um grupo heterogêneo, originado do movimento republicano na cidade, menos conservador que o outro, formado por agricultores, industriais, comerciantes e profissionais liberais, explicitamente republicanos.
Com a importância que adquiriu, a Associação Comercial se viu inserida nessa disputa, tendo tomado parte do grupo republicano, pois respondia melhor aos seus interesses, enquanto que o outro era o oposto, pois iria favorecer o crescimento da lavoura em detrimento das outras atividades.
Felix Guisard, Fernando de Mattos e Carlos Adolpho Leonardo, foram os principais responsáveis pela inserção da entidade no processo político municipal, logo, os ataques feitos contra eles representava ataque à Associação Comercial. De forma indireta, fazer parte da Associação Comercial, representava compactuar dos interesses dos dirigentes políticos taubateanos, representava tomar parte na disputa política e engrossar o grupo republicano.
Situação e oposição entendiam isso, e a entidade tornou-se importante centro de atenção das lideranças políticas. O fato era que apenas um grupo seria detentor do poder político. E, naquele momento, o grupo dirigente era o dos republicanos, do qual faziam parte os membros da Associação Comercial.
A divisão política na cidade podia ser definida entre o grupo republicano de José Benedito Marcondes de Mattos, e a oposição do grupo de Pedro de Oliveira Costa. Sendo a Associação Comercial partidária de um deles, não é de se estranhar que a oposição a atacasse.
A partir de 1902, a disputa política saiu do campo das idéias para o campo das agressões físicas. Felix Guisard, que na época ocupava a vice-presidência da Câmara Municipal, foi agredido, com sua esposa, Jane Guisad, a caminho de sua casa. O caso foi atribuído à motivações políticas, e clima de disputas entrou em ebulição. Pouco tempo depois, Guisard declarou seu afastamento de qualquer atividade pública, o que incluía as atividades da Associação Comercial. Naquele mesmo ano, diversas acusações eram feitas contra a administração municipal sobre o atraso nas obras de saneamento da cidade, que eram de responsabilidade de Fernando de Mattos, sendo apontado o elevado custo que a obra tomou, fugindo significativamente do projeto inicial. Naquele ano, Fernando de Mattos já era o Delegado de Polícia de Taubaté e, por isso, seria alvo de novas acusações em 1905, quando teria, supostamente, impedido a entrada de advogados na cadeia pública. O escritor Monteiro Lobato, na época advogado, foi o responsável pelas acusações. E, na série “O delegado fora da Lei”, publicada no Jornal “O Norte”, divulgou suas acusações que resultou no pedido de exoneração pelo secretário estadual de justiça do delegado taubateano.
Essas ações atingiram sensivelmente a administração municipal, tirando sua credibilidade, e, por conseqüência, a Associação Comercial, pois os pivôs da crise foram membros da entidade.
Em 1906, Marcondes de Mattos declarou seu afastamento da política. E, na eleição estadual de 1907, mesmo com o grande movimento liderado por Fernando de Mattos pela sua eleição, foi derrotado pelo seu rival local Pedro de Oliveira Costa, o mesmo aconteceu na eleição municipal, em que o diretório de Marcondes de Mattos elegeu apenas dois representantes enquanto que o opositor elegeu os demais.
A derrota de Marcondes de Mattos naquela eleição representou o enfraquecimento de todos seus aliados. Felix Guisard ficou afastado do público, Fernando de Mattos foi afastado do cenário político e, aos poucos, perdendo a fortuna acumulada na cidade, principalmente depois de ser forçado a vender sua empresa, a Companhia Norte Paulista, para a Câmara Municipal, por não ter cumprido o contrato de construção da rede de saneamento básico municipal.
A soma desses acontecimentos causou, em 1907, o fechamento da Associação Comercial de Taubaté.